quinta-feira, 27 de março de 2014

Uma artista sem palco


"O Voo da Anhuma" é um espetáculo musical que escrevi para que os alunos do Ponto de Cultura Espaço Cultural Barros Junior se apresentassem em 2012. Teatro, dança, música e cenografia se uniram para fazer dos escritos, vivos.

A peça tem início com quatro crianças lendo um grande livro de história, que conta a trajetória de uma passarinha adolescente, a pequena Anhuma, que resolve vir para Salto, para conhecer o local onde seus antepassados viviam. Quando chega, porém, fica arrasada em perceber as condições do Rio Tietê, tema central do espetáculo. 
A trama percorre todo o passado, desde os índios, colonizadores, instalação de indústrias, vinda de Dom Pedro... até chegar aos dias de hoje, quando a poluição se faz dona do local.

As duas crianças menores ficam indignadas e acabam reescrevendo o final da história, deixando o rio limpo e permitindo que a natureza seja, como deveria sempre ter sido, a grande estrela!

Escrevo esse texto, não para falar da Anhuma, nem para discutir a poluição do Tietê, mas para falar da personagem "Adelaide", que na peça é uma popstar do Meio Ambiente.  

Logo no início do espetáculo, as quatro taperás convidam a anhuma para assistir ao show da Adelaide, que acontecia em todo final de tarde "exatamente onde o Rio Jundiaí se encontra com o Rio Tietê", e então, a passarada toda acaba fazendo uma grande festa!

Como os saltenses já devem imaginar, Adelaide é uma garça. E essa passagem narrava o que diariamente acontecia no encontro das águas desses dois rios, na entrada da cidade. As árvores que lá existiam ficavam repletas dessa ave e o show realmente se fazia aos olhos dos muitos que lá paravam ou passavam para contemplar.
Me refiro à esse espetáculo da natureza no tempo passado sim, pois por conta da derrubada da maior parte dessas árvores, para a construção de uma ponte, nunca mais Adelaide e suas irmãs, farão shows tão belíssimos quanto àqueles que um dia existiram...
Infelizmente, se um dia reprisar o espetáculo musical, terei que reescrevê-lo, fazendo da garça, uma artista sem palco, uma artista sem brilho... um "Mirante das Garças" sem árvore, sem garça, sem vida...

(Foto: Espetáculo musical "O Voo da Anhuma" - Espaço Cultural Barros Junior - 2012)